terça-feira, 12 de maio de 2009

Maioridade com que idade?


Estava ouvindo distraidamente um noticiário da TV, quando um assunto recorrente me chamou a atenção. Discutia-se a alteração da legislação para que a maioridade passasse a ocorrer aos dezesseis anos.

Como tal assunto me incomoda! Entendo os motivos que levam muitos brasileiros à defesa dessa mudança: crimes praticados por jovens, quadrilhas que usam jovens para autoria de delitos a fim de se beneficiarem com a proteção legal que consiste nas medidas sócio-educativas, que tem o limite temporal de 21 anos para sua aplicação, etc. Neste assunto, porém, o que mais me incomoda é a sensação de que queremos negar o direito à juventude a alguns apenas: os jovens pobres em situação de risco.

Vejo jovens de classe média terem sua juventude e dependência cada vez mais prolongadas, seja por meio da convivência na casa paterna até aproximadamente os trinta anos, seja no ingresso ao mercado de trabalho depois de formados e pós-graduados. Nada contra, são livres decisões que cabem exclusivamente ao próprio contexto familiar. Vejo ainda, algo emblemático que comprova a incoerência e a degradação de nossa civilidade. São os transportes escolares: aquelas Topics que anunciam em seus parabrisas “UNIT à noite” ou “UFS”. Nossos universitários, maiores de idade, portanto, necessitam de transporte escolar, geralmente custeado pelos pais, tal qual crianças do ensino fundamental para irem a suas aulas. Por quê? 

Na década de 50, o brasileiro vivia em média 46 anos e a maioridade acontecia aos 21, ou seja, quase metade da vida era juventude. Atualmente no Brasil, vivemos em média 72 anos, a maioridade se dá aos 18 anos e alguns querem reduzi-la para os 16; repetindo a conta, a juventude passa a representar apenas 20% do tempo médio de vida de um brasileiro.

Nem Darwin explica tal mutação em tão pouco tempo. A maioridade aos 21 anos tem referências biológicas que ultrapassam nossos códigos legais. Existem leis biográficas às quais todos nós humanos seguimos. A maturidade se dá no corpo físico, inclusive, neurologicamente falando. Também no aspecto anímico ocorre amadurecimento à medida que conseguimos mais e mais controlar nossas emoções e nossa vontade. Este amadurecimento saudável pode e deve ser proporcionado pela educação, embora, as escolas como conseqüência de nossa sociedade, valorizem e avaliem quase exclusivamente o desenvolvimento cognitivo – o saber intelectual. Pedagogicamente, penso que as atividades escolares devem equilibrar ações que estimulem o pensar com atividades artísticas, dinâmicas de grupos e esportes coletivos, promotores do amadurecimento emocional (sentir), além de praticas de trabalhos manuais com madeira, argila, jardinagem, mecânica, dentre outras que nos desenvolvem e educam a vontade e o agir no mundo.

Será que não estamos agindo por impulso quando defendemos ainda mais a redução da maioridade para os 16? Sem olvidarmos que há em nosso país  quem defenda sua redução para os 14 anos. É possível reduzir verdadeiramente a adolescência a dois ou três anos apenas? Queremos extirpar a difícil fase da adolescência por decreto? Seria a juventude um objeto platônico, apenas idealizada e nunca realizada, já que nós sempre queremos parecer jovens enquanto o tempo insiste em nos mostrar o contrario com seu argumento incontornável? Por ser a adolescência  uma fase passageira, será que vale à pena darmos tanta importância a ela?

São perguntas difíceis às quais não tenho respostas confortáveis. Sabemos que as políticas públicas para juventude são precárias demais no Brasil e em muitos outros países. Os jovens formam o grupo social mais vulnerável e mais exposto a desafios. Para eles o desemprego é maior, a inserção no mundo do trabalho é mais difícil, é natural sua dificuldade de relacionamento com os adultos, não são preparados para a cultura empresarial e suas atitudes e valores facilmente colidem com as exigências do trabalho.

Políticas públicas estarão condenadas ao fracasso sempre que tratarem os jovens como atores sem identidade própria e sem independência e não levarem em conta a diversidade cultural e material presente entre eles e o seu desenvolvimento biopsicossocial. De universal mesmo, em nossa sociedade brasileira, vejo um processo de “juvenilização” dos adultos que os incentiva a omitir-se das suas responsabilidades, e outro processo de “adultilização” das crianças e jovens que atropela o ritmo natural e harmonioso de seu desenvolvimento, a exemplo da maioridade precoce, da erotização e consumismo das crianças, e da antecipação recente do ensino fundamental e da alfabetização em um ano.

Ao creditarmos à redução da maioridade penal uma mudança real da segurança pública, estamos tão somente nos desviando do real problema. Ou será que menores bebem mais que maiores? Menores se drogam mais que maiores? Menores roubam mais que maiores? Menores são mais corruptos que maiores? ...? ...?   
 
Quero um amplo debate da sociedade brasileira sobre o tema. Acredito que a saída está na educação. Mas não uma educação redentora ou salvadora que nos chegue como mágica. E sim, numa educação construída num cotidiano honesto nas salas de aulas, nos lares, nas empresas e nos governos por adultos que colaborem (ao invés de concorrerem) com os jovens e sejam conscientes de suas responsabilidades na construção de um país.

Se reduzirmos a maioridade para os 16 anos, teremos criminosos cada vez mais jovens e indefesos frente a seus algozes, que, lamento, continuarão aprendendo pelo mau exemplo dado por maiores, exatamente como já ocorre hoje.


Publicado no jornal Cinform 11/05/2009 – Caderno Emprego

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