terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ensino Fundamental com que idade?



     A polêmica Resolução do Conselho Nacional de Educação – CNE,  estabelece a idade mínima de seis anos completos até o dia 31 de março do ano para a criança ser matriculada no Ensino Fundamental. Naturalmente há muita discussão sobre a pertinência da norma, bem como sobre eventuais desconfortos de sua aplicação aos pais que acompanham o desenvolvimento de seus filhos com grande expectativa, ou ansiedade.

Sabemos que os amadurecimentos neurológico e psicológico das crianças não são tão sincronizados ao calendário, como defendem os opositores da tal Resolução. Também sabemos que há crianças que aceitam a precocidade do processo de alfabetização com boa adaptação.


     Porém, existem inúmeras outras crianças que sofrem danos no seu crescimento, comprometendo a autoestima em maior ou menor grau por não conseguirem acompanhar as exigências cognitivas aceleradas e infrutíferas, impostas por uma escola que desrespeita seus direitos mais elementares, como por exemplo, concentrar suas energias no desenvolvimento do seu próprio corpo e dos seus sentidos, instrumentos que  necessitam ser saudáveis para o resto de suas vidas.


     Existem ritmos biológicos que são imutáveis e, como tais, devem ser considerados pela pedagogia para se iniciar adequadamente à alfabetização. O corpo da criança revela sinais de amadurecimento neurológico: a conclusão da troca de dentes, a proporção entre o tamanho da cabeça e o tamanho do corpo, o estirão que ocorre em torno dos seis anos e o controle do organismo sobre febres, entre outros.


     O resultado do Provinha Brasil demonstra que as crianças mais novas têm pior desempenho, segundo pesquisa da Fundação Carlos Chagas, realizadora do exame. Sendo assim, qual é o ganho de antecipar o ingresso no ensino fundamental? Será que esticando a grama ela crescerá mais rápido?  


     Vivemos uma febre de intelectualidade em nossos tempos, a qual ocasiona uma típica deformação social moderna. Ao aderirmos a essa exacerbada racionalidade, negligenciamos a outras capacidades humanas indispensáveis para a harmonia social. De que vale ser “inteligente” e ser um adulto inseguro? Ser “o primeiro da classe” e não saber respeitar a diversidade humana?  Ingressar na universidade aos dezesseis anos desconhecendo a própria vocação? Esses são alguns exemplos muito comuns. 

     Particularmente, nós, brasileiros, vivemos em uma profunda crise de valores, paralela a um apagão de criatividade e inovação tecnológica. Se de um lado produzimos muitos artigos científicos, do outro, temos pouquíssimas patentes. Ou seja, somos experts em colocar modelos no papel, mas não sabemos como realizá-los.


     “Se você quer que seu filho seja brilhante conte a ele contos de fadas. Se você o quer muito brilhante, conte-lhe ainda mais contos de fadas”, disse com toda propriedade Albert Einstein, gênio emblemático da racionalidade humana. Portanto, jamais podemos tirar o direito à infância de nossas crianças sem comprometer seu desempenho quando adulto. Foi o que disse a Carta da Rede Nacional Primeira Infância - RNPI - e Associação Brasileira de Magistrados, Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e da Juventude – ABMP - entregue a 1600 juízes, promotores públicos, defensores da infância e da juventude, advogados, estudantes de direito e vários outros profissionais que trabalham com crianças e adolescentes, no 23º Congresso da ABMP, em Brasília, no dia 5 de maio de 2010: “(...) Antecipar a entrada no ensino fundamental para a idade de cinco anos é uma forma de reduzir a infância e impor exigências que acabarão por produzir efeito contrário do desejado: estresse, desinteresse pela escola, reprovação e abandono. Mas o efeito mais pernicioso se instala no íntimo da criança e esse dificilmente será reparado, porque criança sem infância é, na grande parte dos casos, adulto infeliz.” Vale registro que esse documento foi encaminhado ao Senado por dezenas de instituições pedagógicas e de proteção à infância, incluindo-se a UNESCO e a UNICEF. 


     Sejamos radicalmente contrários à precocidade como regra a fim de não corrermos o risco de gerar uma legião de excluídos sociais, por um engano irreparável do sistema educacional. Muito cuidado. Semelhante ao erro médico existe o erro pedagógico – igualmente danoso. Acredite!




Publicado no jornal Cinform em 28/11/2011 – Caderno Emprego



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