segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Escotismo e empreendedorismo social

O escotismo, movimento civil criado pelo inglês Baden-Powell no início do século XX, atraiu centenas de milhões de jovens, de dezenas de países, às suas fileiras nessas décadas de feliz existência. Pessoalmente, fui privilegiado por ter me engajado nesse movimento no Grupo Escoteiro Antonio Vieira, integrado ao colégio jesuíta de mesmo nome, em Salvador-BA. À época, muito me ajudaram na formação do caráter e da coragem, as grandes aventuras no campo, incluindo a então desconhecida, Chapada Diamantina. Sou muito grato por ter recebido essa formação cidadã plena.
O escotismo sempre pautou sua práxis no respeito ecológico e nos valores humanos, regulada pela Lei do Escoteiro com seus dez artigos, que objetiva expressar um ideal de Ser Humano. É relevante dizer da prática pedagógica direcionada ao desenvolvimento: de habilidades de convivência e sobrevivência; dos conhecimentos sobre a natureza; da disciplina formadora do caráter; da construção da autonomia; do autocuidado com a saúde e; do respeito aos valores cívicos e morais.
Muitas das atuais recomendações de preservação ecológica já estavam pautadas nos procedimentos escoteiros há mais de 100 anos. Assim, as atividades de campo sempre foram realizadas com respeito às populações locais, à fauna e à flora. Além disso, o escoteiro tem espírito fraternal atuante e uma permanente disponibilidade de ajudar o próximo; e ainda, é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros, independentemente de origem, classe social, credo, língua e etnia.
A capacidade de iniciativa, a cultura do associativismo e o cuidado para com os necessitados, acrescido da disposição de atuar ao ar-livre e em equipe (patrulhas), formam os pré-requisitos ideais para o trabalho social. São qualidades que, infelizmente, parece faltar na maioria dos jovens atuais, ocupados apenas mentalmente e desorientados sobre como agir no mundo, ampliando a exposição deles aos riscos.
Vivemos em um País sacudido pela violência e precário na infraestrutura de serviços ao cidadão de baixa e média renda. Agrava esse cenário a cultura tão comum em nossas paragens de buscar resolver problemas nacionais com soluções individuais, à moda de Macunaíma. Exemplos não faltam: transporte escolar para universitários, como se fossem crianças; segurança particular; plano de saúde privado; escola paga e; isolamento crescente (dos que podem) do contato com o povo.
Aos olhos dos que possuem espírito empreendedor, esse cenário caótico traz inúmeras oportunidades de realizações bastante recompensadoras. Aliás, entenda-se empreendedorismo como a capacidade de construir sonhos e não, necessariamente, montar empresas comerciais. Dessa maneira, aliar as qualidades do escoteiro às demandas sociais pode ser o foco para o engajamento de jovens brasileiros a nobres e envolventes causas de ecologia, prioritariamente, urbana. Soma-se a isso, a oportunidade de formar novos líderes, verdadeiramente conhecedores da realidade do lugar e dotados de caráter exemplar.
Com efeito, dotar de competências de gestão de projetos sociais os Escotistas, os Pioneiros e os Escoteiros Seniores, pode ser o caminho de avanços na prática escoteira do século XXI. Portanto, um atrativo a mais para o jovem tipicamente urbano contemporâneo. Dessa forma, não há que se abrir mão dos consagrados fundamentos do escotismo, mas sim, ampliar as ferramentas e os espaços de atuação civil desse educativo serviço voluntário. Essa é a proposta deste texto, especialmente para o Brasil, País de elevada concentração urbana, acarretando em que cerca de 85% da população ocupa apenas 1,5% do próprio território.
Quem sabe, hei de ver a minha velha Patrulha Búfalo desenvolvendo um projeto de vacinação de todos os cães do bairro, protagonizando essa ação articulada com o Poder Público, a comunidade e as faculdades de veterinária. Modelo de ação cooperada, de interesse público, integrando vários atores, executada no campo urbano e capacitante para o trabalho profissional. Esse exemplo é um típico projeto ganha-ganha, para o benefício de todos, especialmente, para o jovem que esteja Sempre Alerta para o bem.

Publicado no jornal Cinform de 15/09/2014 – Caderno Emprego


5 comentários:

  1. Ótimo texto ,parece que foi escrito hoje 2017

    ResponderExcluir
  2. Ótimo texto ,parece que foi escrito hoje 2017

    ResponderExcluir
  3. Então é possível considerar o escotismo uma iniciativa de empreendedorismo social?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim! O escotismo sob a forma de organização do terceiro setor é uma iniciativa EMPREENDIDA para o social. Mas será muito mais relevante à medida que as suas ações potencializem a realização social e ambiental por meio dos escoteiros. Abs

      Excluir