segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Endividamento e pobreza disfarçada


Disse o historiador inglês Thomas Fuller, no século XVII, que “a dívida é a pior pobreza”. Por certo, tal frase continua perfeitamente atualizada para o nosso século.
No Brasil não é diferente: pesquisas recentes afirmam que o brasileiro mantêm níveis de endividamento muito elevados, pois 41% dos entrevistados estão, ou estiveram com restrições ao crédito por inadimplência e 54% possuem dívidas que comprometem a renda mensal com parcelas de cartões de crédito.
A pesquisa, realizada em 2012, pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Paraná - Sinduscon/PR -, aponta dados preocupantes, porque 41% das famílias declararam que a causa da inadimplência é decorrente de falta de planejamento, ou seja, má administração das finanças, seguido por desemprego com 11%.
Nesse cenário, economistas recomendam que se disponibilizem cursos de Educação Financeira para todos, especialmente para os mais jovens. Essa capacitação deveria ser ofertada pelas próprias instituições financeiras, juntamente a órgãos governamentais, fomentando a cultura do “crédito responsável” e minimizando o impacto perverso causado pela inadimplência de alguns que acarreta custo social para muitos.
A politica econômica adotada pelo Brasil, de fomentar o acesso ao crédito como forma de manter a atividade produtiva vigorosa, é um modelo limitado, por promover paralelamente o endividamento da população. Uma população endividada forma uma sociedade cujo futuro está comprometido e, demonstra a pesquisa, a maioria dos cidadãos se endividou sem a clareza necessária para fazer tal operação de longo prazo. Grande parte desse comprometimento de rendas futuras surge estimulado por compras impulsivas ou para saldar inadimplência de parentes, principalmente por meio do crédito consignado dos aposentados.
Sob a ótica econômica, dívidas longas contraídas para aquisição de bens de consumo implicam em perda patrimonial para a família, sendo nefastas, portanto. Já as dívidas relativas à compra da casa própria, por exemplo, são vistas como saudáveis por promoverem uma forma de poupança.
Porém, considerando o despreparo do consumidor relativo a operações financeiras e a indução ao crédito feito por propagandas comerciais e governamentais, temos que concordar com o autor Peter Senge, pesquisador de referência em técnicas de aprendizado coletivo, quando afirma: “na ausência de um grande objetivo, a mediocridade prevalece”. Isto é, sem um bom projeto para uso do capital de terceiro, todo recurso será ameaçador, ainda mais com as abusivas taxas de juros locais.
Do ponto de vista filosófico, todo empréstimo é uma operação baseada em relações de confiança mútua. Assim, quem empresta disponibiliza recursos acumulados do seu passado em favor do projeto de outro. Como projeto é algo “por fazer”, logo nos remete ao futuro, e a todas as suas incertezas. Dessa maneira, uma operação de crédito corresponde ao encontro do passado de um (financiador) com o futuro de outro (tomador).
Como sabemos que o futuro sempre envolve risco, por sua natureza incerta, entende-se a solidariedade de quem concede o empréstimo, via análise de crédito, com a capacidade de honrar o compromisso do tomador.
Com efeito, endividar a população de menor renda para estimular o consumo pode render dividendos políticos de curto prazo por gerar a sensação de melhoria do poder aquisitivo e assim, disfarçar a pobreza. Contudo, poderá ser uma medida recessiva a médio e longo prazo por “escravizar” o devedor e sua família com o comprometimento de significativa parcela de rendas futuras. Isso assegurará a manutenção da pobreza e trará intranquilidade para muitos brasileiros e brasileiras que viverão a sensação de que “o dia que está por vir parece maior que o ano que passou”.
Para iniciar um bom curso de educação financeira sigamos a recomendação do poeta Vinicius de Morais:
 “Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.”




Publicado no jornal Cinform de 17/11/2014 – Caderno Emprego
Publicado no jornal Coerente de 15/12/2014 – Edição 14
Publicado na revista TI&N n°21 - Dez/2014
Publicado em 04/02/2015 em http://www.administradores.com.br/artigos/economia-e-financas/endividamento-e-pobreza-disfarcada/84575/

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