segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Agora a educação vai pro espaço

 

Há mais de cinquenta anos, o mundo assistia ao lançamento do satélite pioneiro Sputnik, originado na extinta URSS. Fato este que marca o início da disputadíssima corrida espacial protagonizada por soviéticos e americanos. A conquista do espaço sideral representava o poderio militar dos países líderes de blocos geopolíticos. A superioridade americana só se tornou visível quando a nave Apolo XI, tripulada por três astronautas pousa na lua em 1969, levando o homem a por os pés no nosso satélite natural pela primeira vez. Cena transmitida ao vivo para um bilhão de espectadores na Terra. Famosa tornou-se a frase do astronauta Neil Armstrong, pioneiro a sair da cápsula e caminhar na lua: “Um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade”.   


Os astronômicos (literalmente) orçamentos destinados à corrida espacial foram reduzidos gradativamente após o fim da guerra fria, implicando na economia de bilhões de dólares. Embora a NASA, agência espacial americana, tenha gasto muito dinheiro na sua época áurea, também, foi uma das instituições mais transformadoras do mundo. Das suas pesquisas resultou o registro de cerca de 6.300 patentes de produtos inovadores, destacando filtros para água, aparelhos ortodônticos invisíveis, lentes óticas resistentes a arranhões, detectores de fumaça ajustáveis, ferramentas elétricas sem fio, dentre outros.


Hoje, a corrida espacial está mais difusa nos seus objetivos, ofertando serviços inestimáveis nas áreas de logística, navegação em geral, comunicação e controle ambiental. O GPS (sistema de posicionamento global) é fruto de tecnologia espacial, assim como as transmissões de sinal de TV de uma Copa do Mundo irradiada simultaneamente para centenas de países. O fato é que hoje, faz muito tempo que o homem não pisa na Lua.


Mas o que a corrida espacial tem a ver com educação? Do ponto de vista da educação profissional temos ai à oportunidade de gerar técnicos altamente qualificados para a crescente demanda por serviços prestados pelos mais diversos satélites artificiais, inclusive brasileiros. Já, sob a ótica da educação formal, temos no campo da astronomia e astronáutica a infinita possibilidade de atividades transversais ou interdisciplinares motivadoras. Certamente, por trás do lançamento de um projétil que percorrerá longos trajetos com alterações ambientais extremas, há de ser trabalhado um arranjo de várias disciplinas do conhecimento humano para a superação dos severos desafios impostos ao nosso foguete. Durante a viagem espacial, por exemplo, o lado voltado para o sol em um foguete chega a aquecer a mais de 120° C, enquanto o lado que está na sombra esfria a -100° C. Qual a alimentação adequada para os tripulantes? Como tratar os excrementos humanos? Como a ausência de gravidade altera a saúde física e psíquica dos seres humanos? Essas perguntas norteiam temas geradores para a pesquisa e a criatividade das respostas que, com efeito, ultrapassarão os conteúdos de qualquer disciplina escolar isolada.


Costumo diagnosticar que a deficiência educacional brasileira está na ausência ou no sub-dimensionamento de atividades pedagógicas para as boas práticas do conviver e do desenvolvimento de hábitos socialmente construtivos. Também definhamos nas atividades pedagógicas que eduquem a vontade, ou seja, a volição. Enquanto gestor de escola de educação profissional, tenho minha atenção voltada para a formação de nossos alunos no conhecimento, nas atitudes e nas habilidades necessárias aos profissionais competentes. Costuma-se exagerar na construção do conhecimento nos alunos, como se isso bastasse. Vejo o conhecimento como a porta de entrada para o trabalho, porém, o que conserva o emprego e garante ascendência na carreira profissional são as atitudes e habilidades do trabalhador. Menos de 20% das demissões são ocasionadas por falta de conhecimento do brasileiro.


Nesse cenário, o SENAC em Sergipe está desenvolvendo a corrida espacial entre centenas de adolescentes aprendizes que estão empenhados em levar a marca de suas empresas para o alto, estampadas em foguetes que  estão fabricando, aplicando conhecimentos diversos, desenvolvendo habilidades manuais e técnicas, e acima de tudo, aprendendo a trabalhar em equipe. Esses bólidos estão sendo construídos com material reciclado, e o combustível propulsor é água pressurizada. Inócuo, portanto, do ponto de vista ambiental. Nessa oficina existe um orientador habilitado pela Agência Espacial Brasileira e a contagem regressiva já está em curso até o dia 16 de outubro quando os foguetes serão lançados às 9 horas, no Parque da Sementeira. Esse espetáculo é uma homenagem aos professores pela passagem do seu dia, 15 de outubro.


Ah! E por que o homem não pisou mais na Lua? Talvez atendendo a pedidos diversos, como na marchinha:


“Todos eles estão errados/ A lua é dos namorados/ Lua, oh lua/ Querem te passar pra trás/ Lua, oh lua/ Querem te roubar a paz/ Lua que no céu flutua/ Lua que nos dá luar/ Lua, oh lua/ Não deixa ninguém te pisar.”

   



Publicado no jornal Cinform 11/10/2010 – Caderno Emprego



Nenhum comentário:

Postar um comentário