segunda-feira, 3 de maio de 2010

Poluição, lucro e prejuízo



O homem desenvolveu dois métodos para lidar com os rejeitos poluentes: caso seja sólido, procura concentrar para que seja isolado no ambiente. Caso seja fluido, isto é, gasoso ou líquido, procura dispersar para não mais tornar-se visível. Assim, a poluição atmosférica ou hídrica é socializada para todo o planeta automaticamente, enquanto a poluição sólida dos aterros e lixões, por exemplo, é delimitada geograficamente. Embora, a poluição sólida sempre reflita em poluição aérea ou do lençol freático, e portanto socializada parcialmente.


Quero com isso fazer um paralelo entre essas metodologias de combate a poluição e as metodologias econômicas usuais no Brasil. Em nosso país, o tratamento que se dá aos prejuízos econômicos se igualam ao tratamento de efluentes fluídos. Socializa-se automaticamente, às vezes na calada da noite, outras vezes acintosamente à luz dos olhos de todos. Emblematicamente, o sistema financeiro repassa todo seu risco e prejuízo aos seus clientes através da taxa de juros, das taxas de serviços ou do spread bancário (diferença entre as taxas de captação e aplicação financeiras). Por sua vez, a indústria e o comércio repassam estes custos para o preço dos seus produtos, majorando o preço final pago pelo consumidor.


Quando uma empresa deixa de honrar seus compromissos com uma instituição financeira, todos pagam. Desta forma, é ingênuo pensar que se trata de um problema localizado, restrito aos agentes relacionados diretamente com o infeliz empresário. Não, a lógica tem se mostrado perversa: a instituição financeira lesada vai repartir o seu “prejuízo” entre todos aqueles que mantêm negócios, inclusive clientes pessoas físicas por meio de suas infindáveis e gordas taxas de juros e serviços ou as anuidades de cartões de crédito.


Importante se faz entender a prática do repasse de custos aos preços finais, o que socializa indistintamente até potenciais prejuízos não efetivados. No preço dos produtos de consumo obrigatório, tipo material escolar, leite para crianças, remédios, transportes, higiênicos e comida, dentre outros básicos estão embutidas externalidades financeiras que não dizem respeito direto ao consumidor, especialmente os de mais baixa renda.


Isto faz do Brasil o país único no mundo que conseguiu fazer um portentoso crescimento do PIB nos últimos 60 anos sem mudar a desigualdade da distribuição da renda. Coisa que só o Brasil consegue. Seja pela criatividade de fazer políticas compensatórias como tíquete-refeição, vale transporte, vale-gás, bolsa-família, etc. Seja pela distribuição livre dos prejuízos a toda a sociedade, penalizando mais os de baixa renda, perpetuando desigualdades e neutralizando ações de políticas públicas reparadoras.


Já o lucro, tão visado ideologicamente, é em tese, muito menos perverso. Com ele, acontece algo semelhante à poluição de sólidos: mesmo concentrado e isolado, é socializado através da “contaminação” dos fluidos ao seu entorno, inclusive na forma de impostos. Portanto, muito mais controlável e saudável que o invisível prejuízo.


Como vemos, tratamos o lucro com impulso concentrador e os prejuízos com impulso dispersor. Não devemos crer que seja possível uma sociedade existir sem ambos já que derivam da assunção de riscos inerentes ao mundo dos negócios.


Na minha visão, lucro e prejuízos são entes naturais da atividade econômica. Não visualizo problemas em ambos dentro de valores e padrões razoáveis.  Mas o que seria razoável? Talvez a visão orgânica da economia traga respostas.


Na natureza, a produção de excedentes é regra básica. Uma laranjeira dá milhares de laranjas com sementes durante sua vida. Caso não houvesse excedente nessa planta, ela daria apenas uma laranja com duas sementes no máximo, para repor sua existência. Sem mais.


O organismo humano produz bilhões de espermatozóides e milhares de óvulos para pouquíssimos serem fecundados. O risco de fracasso é alto e as possibilidades de reprodução são baixas. Inúmeras perdas são freqüentes, ou seriam prejuízos? O excedente corresponde ao risco e essa é a regra natural.


Tudo que é produzido pela natureza é produzido com excedentes. Semelhantemente, na atividade econômica o mesmo acontece com o uso intenso de tecnologias, é o caso de uma máquina de produzir pneus que produzirá muito mais pneus que todos os envolvidos no processo serão capazes de consumir. A diferença é que na natureza só há cooperação e na economia predomina a competição.


O surgimento de uma floresta é de uma beleza sem par. Os primeiros arbustos que surgem vêm apenas para fazer sombra para as árvores secundárias, mais nobres. As secundárias também visam sombrear idealmente o local para o crescimento protegido das terciárias, ainda mais nobres e definitivas. Quando as sucessoras ultrapassam as pioneiras, estas morrem e irão adubar o solo para o desenvolvimento bem sucedido das plantas mais nobres. Assim, surge uma Mata Atlântica, por exemplo, fruto da mais alta cooperação entre seres ditos irracionais.


Na natureza, como na economia existem o excedente, o risco, a perda e a doença. Mas, penso que se nos espelharmos no modelo orgânico para conduzir a moralidade econômica viveremos em justa paz com desenvolvimento cooperado, ainda que alguns sejam pioneiros e outros mais definitivos nas suas atividades. Mas igualmente importantes para o todo.





Publicado no jornal Cinform 03/05/2010 – Caderno Emprego

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