segunda-feira, 2 de abril de 2012

De tanto pensar, morreu um mundo


     
     Vivemos a era do intelecto. Nos dias atuais, a exigência de uma formação intelectual se tornou pressuposto de sucesso no universo do trabalho e das profissões. Modo geral, somos extremamente estimulados na escola e na sociedade para o desenvolvimento cognitivo da memória e da capacidade intelectual.

     Valorizamos tão demasiadamente a atividade cerebral, que, por vezes, alguns autores teimam em reduzir o ser humano a um cérebro isolado. No máximo, esses adoradores da massa cinzenta devem ver os demais órgãos como satélites que orbitam em torno de um cérebro. Seriam estes os neoencefálocentristas?

     Diferentemente da imagem de provedor do futuro, ou de fonte do porvir, nosso caríssimo cérebro funciona muito mais semelhantemente a um espelho retrovisor do que a um farol que ilumina nosso próximo passo. Explicando melhor: o pensar é fruto de nossas experiências e aprendizagens já realizadas, ou seja, ele vive e se alimenta do passado. Por isso, para sermos bons profissionais, temos que possuir um estoque de conhecimentos adquiridos por muitos anos na escola e por meio das atividades laborais. Assim, é o nosso passado, que nos faz bons pensadores e usuários das nobres funções cerebrais.

     Costumo dizer que se o nosso tão valorizado pensar nos orientasse com segurança para o futuro, acertaríamos o resultado das próximas loterias com a mesma facilidade que acertamos os números de quinas já sorteadas. Além disso, prever o futuro é tão inacessível a nossa cognição que atribuímos isso - em pleno terceiro milênio - a fatores místicos ou mágicos.

     Com efeito, esse mundo da supervalorização das atividades cerebrais e do acervo de informações e conhecimentos pretéritos pode ser responsável pela inviabilidade do nosso futuro. Sabemos tudo, mas erramos muito na nossa conduta. Então, saber não é fazer. Enquanto superestimamos o conhecimento sem a sua coerente aplicação no mundo, nos orgulharemos de nossas conquistas teóricas avançando para o abismo da realidade órfã. Ou seja: um discurso bonito por fora e decomposto por dentro.

     A humanidade, impulsionada por essa onda de intelectualidade, vive no presente a inédita sensação de acreditar que o futuro poderá ser pior que o passado. Trata-se da desesperança coletiva inovadora e infeliz. Enquanto apenas pensamos, ainda que positivamente, sem agirmos, não poderemos ser felizes e equilibrados. Pior que isso, é quando temos um pensamento negativo e agimos para sua realização, a exemplo da vigorosa indústria bélica.

     Devemos, portanto, investir na formação de uma nova escola, que desenvolva seus alunos integralmente por meio da educação do pensar, das atitudes e da vontade. Isso pode ser conquistado, estimulando o empreendedorismo e a cultura da cooperação. Cumpre-se, desse modo, três pilares da educação do Século XXI, propostos pela Unesco: aprender a aprender, aprender a fazer e aprender a conviver.

     Se temos conhecimento sobre a erosão dos solos, o envenenamento das águas, a poluição do ar, a distribuição de renda, os serviços de saúde, as escolas, a segurança pública e a riqueza produzida no mundo, então, somos irreversivelmente responsáveis pelo futuro do planeta.  

     Não temos mais o direito à indecisão, senão viveremos o paradoxo do Asno de Buridan, que na dúvida entre comer um monte de feno e assim matar a fome ou beber uma gamela de água e matar a sede, olhava um, olhava outro e acabou morrendo, na dúvida de qual necessidade atender primeiro. Enfim, de tanto pensar morreu um burro, diz o ditado.

     Creio que vivemos um novo antropocentrismo, no qual o homem é o centro do mundo que o cerca. Um antropocentrismo moderno, sem a pretensão de se sobrepor a Deus e, também, desprovido da vaidade de estar no topo da complexidade biológica da Terra, mas sim por termos conquistado tamanha capacidade de intervenção sobre o planeta que nos responsabiliza definitivamente sobre o próprio destino. É preciso decidir e agir, sem tanto pensar.





Publicado no jornal Cinform em 02/04/2012 – Caderno Emprego
Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 07/2012

          Publicado em 02/02/2015 em http://www.administradores.com.br/artigos/cotidiano/de-tanto-pensar-morreu-um-mundo/84519/

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